É verdade quando o autor diz que tem sono. Dia de acordar cedo, como sempre tem sido. Já vestido, vejo que faltam documentos para que a carteira de motorista seja renovada. Para-se tudo. Procura-se, e procura-se mais uma vez. A maçada, terminada quase às 10:00, inicia um dia sem qualquer atenção. O pescoço dói, como tem doído ultimamente, mas passa com uma massagem. Depois volta, porém, e o ciclo recomeça. Tarde em meio a papeladas, e o grupo de estudos para a Residência fica em segundo plano. À noite teve cinema (Homem de Ferro) e por alguns instantes formaram-se as imagens da infância, com máquinas, pequenos motores, peças pneumáticas e um eletroímã que eu mesmo uma vez fiz ao longo de uma chave de fenda. Desejo de ser realmente bom em algo, de ser um gênio, por assim dizer.

Todos diziam que eu poderia ser o melhor nestas coisas. Eu sempre construí coisas, mecanismos, escrevi programas, mas nada disto frutificou. Quando resta a Medicina, porém, bem, ela é tão grande que eu me sinto verdadeiramente perdido. Não posso construir nela, pelo menos não da forma que eu sempre construí. Isto frustra, de certa forma. No hospital, alguma coisa quebra e logo me levam para o problema. Resolvo-o, quase sempre, e este autor não sabe por que as pessoas não consertam aquelas coisas por elas próprias. O pai era geólogo, e cavava a terra com máquinas gigantescas. Ensinava-me sobre todas aquelas coisas, e eu nunca realmente me interessei naquilo – exceto quando tinha a sensação de ter apreendido algo com consistência. O padrasto, este ainda vivo – mas distante – e engenheiro, me levava para construir coisas. Para consertar coisas. Talvez por isto meu brinquedo sempre foi apenas um: Lego.

Na adolescência as Artes todas vieram, da pintura à música, do teatro à alquimia e à magia (sim, é isto mesmo), um verdadeiro vórtice de tudo o que não é apreensível. A técnica era aprazível. O conteúdo era aprazível. Nunca realmente tive a sensação de entender as artes. Até hoje não sei ao certo o que é isto. Tudo estava diluído em Arte, e assim foi do preâmbulo à Psicologia, e desta à Medicina. Este autor ingressou no curso médico fantasiando estar em vias de se tornar uma espécie de druida moderno. Hoje, porém, ele odeia médicos pajés e todo tipo de bobagem. Pensou em largar todas as coisas, mas acabou ganhando uma analista. Não a largou mais, mesmo com o preço difícil.

Falta a sensação de poder comportar o conhecimento médico em uma única cabeça, em uma única memória. Tudo parece tão inverossímil, tão desconexo, como um sonho ruim. Médicos não entendem de matemática, e há muito esqueceram da física e até mesmo da química. Médicos também não entendem de psicologia ou de religião, e a falta de tato interpessoal de alguns beira o surrealismo, ou a loucura. Estão no meio, e não entendem bem que lugar é este, o que não é tão ruim quanto o fato de nem mesmo arriscarem as perguntas essenciais: o que é isto? Que lugar é este? Como construo conhecimento aqui? No fim, o que este autor vê, em pleno internato, é que o conhecimento médico parece transitar entre dois pólos: numa ponta, um desnecessariamente denso jargão técnico cheio de neologismos tanto inúteis quanto malformados; na outra, uma certa ponta de lábia, de sofisma. Não é por acaso que o senso comum os julga – ou, melhor dizendo, nos julga – como uma classe que parece estar sempre tentando confundir, quando não enganar.

Não creio que o problema deste autor seja o da falta de inteligência. É mais uma tristeza por as coisas serem como são. Médicos entendem, grosso modo, de histórias, e estas histórias, compiladas com a fragilidade da fragmentária obra homérica, versam sobre como manusear linearmente uma infinidade de alterações sistêmicas dos organismos humanos. Em certo ponto, a imaginação de um preceptor termina por enquadrar um doente numa doença que só existe na cabeça daquele, e para o inferno com testes objetivos. No fim dizem, tranqüilos, que Medicina é bom senso e nada mais.

Se Física fosse bom senso, até hoje pensaríamos que a pedra cai rumo à terra e o fogo se insinua para o alto pois o Elemento Terra está abaixo e o Elemento Fogo está em cima, e, como fogo gosta de fogo e terra gosta de terra, eles se atraem, certo?

Em breve tentarei estruturar melhor esta crítica. Por ora fica a coisa em estado bruto. Boa noite a todos.

Tudo começou com uma balança, mas hoje estou doente. Nesta manhã de sexta-feira o ofício de Interno me preparava para uma longa manhã de atendimentos em um ambulatório localizado num ponto ermo da cidade, numa comunidade dita carente. Acho engraçado este termo, pois grande parte dos moradores da rua principal exibem receptores Sky pregados nas suas paredes, muitos deles possuem lojas e o último fumante que atendi, uma senhora de meros cinqüenta anos de idade, teria hoje uma quantia estimada em R$800.000,00 (oitocentos mil reais) caso tivesse comprado ações no lugar de maços de cigarro.

Não estamos diante de uma comunidade carente porque ela não tem recursos, mas por ela não saber usar os recursos que tem. Riram de um grande amigo deste autor quando se mostrou avesso à idéia de tapar os buracos de um bairro sem a menor infra-estrutura sanitária. De maneira semelhante, quando apontei, em uma peculiar reunião semanal sobre “o futuro das ações em saúde”, que muito me agradaria ver economistas integrando equipes de saúde, todos riram redondamente da idéia.

 

Tudo começou com uma balança pois este autor se achou doente, e nada disto tem a ver com um súbito – e chatíssimo – resfriado comum que o derrubou na cama nesta sexta-feira. Tem, antes disto, relação com o fato de ter achado seu corpo… inadequado. Esta foi a melhor palavra que pôde ser achada – inadequado – pois, a rigor, não se pode dizer que o corpo esteja doente, ainda que os fatores de risco existam. Este autor, muito antes de ser interno, não consome qualquer tipo de droga, lícita ou ilícita, quase não come carnes vermelhas e, apesar de todos os esforços, esforça-se contra um incômodo sobrepeso e um histórico familiar rico em percalços.

 

Quando tudo começa com uma balança, isto quer dizer que existe o desejo de não adoecer, na casa dos cinqüenta, por coisas feitas na casa dos vinte. Neste sentido, negar uma prática de ambulatório da sexta-feira pela manhã pode ser o começo de um novo padrão de comportamento, similar àquele que trocaria montanhas de cigarro pelo mercado acionário. Assim que o resfriado passar, o autor vai a uma loja de cores berrantes para comprar uma balança e, toda vez que subir nela, verá um futuro duro se curvar, fluido, enquanto as circunstâncias ainda são moles. Bem moles.

 

 


Um mês é tempo suficiente para entortar o eixo da Terra. Quando se é interno – espécime estranho de estudante de medicina – a imersão prolongada em unidades de saúde induz a uma pequena perda de si, do fio da meada, da coisa toda, menos um lapso e mais uma sensação de ter ido longe demais atrás de um coelho sempre com pressa. O Internato às vezes me lembra de Alice.

Lewis Carroll era professor de matemática, e foi um amigo deste autor, um amante dos números, que revelou uma faceta até então ignorada da obra do notável escritor: tudo ali são problemas, problemas matemáticos (num mundo atípico) cuja resolução (também atípica) conduz a outro lugar (provavelmente a outro problema). A não –resolução, porém, não raro ameaça destinos trágicos, como a perda da própria identidade ou mesmo, ainda que com menos glamour, a uma morte prematura. Uma vez em cada ano surge uma chance – breve – de sair do buraco e respirar um pouco do lado de fora. Este breve ínterim detém um grande poder.

Um mês é tempo suficiente para entortar bastante o eixo de um mundo. Quando os problemas, os hospitais e todas estas coisas, parecem distantes, o que fica é uma sensação de possibilidade, uma sensação magnífica de que múltiplas saídas podem (e são) criadas. Neste mês este autor voltou a ler romances, contou estórias, jogou um pouco de água num jardim bem seco, esturricado, leu sobre economia, mercado de capitais, administração, semiótica, lingüística, teoria literária, pintou três quadros e achou pouco, apaixonou-se pelo Direito numa leitura de Hermenêutica Jurídica.

Veio a memória de todos os professores pretensamente amantes das artes e das humanidades. Pareceram-lhe por demais rasos, diante de coisa em si. Perguntou a razão, e eis que a razão foi revelada: por não agüentarem a aridez quotidiana, recorrem ao uso destes elixires estranhos, e não o fazem porque gostam ou porque sentem ou entendem. Fazem porque é necessário, desesperadoramente necessário.

Este autor por vezes imagina se o desespero dos tutores é, também, o seu desespero, e pensa que talvez seja da mesma natureza, embora em diferente grau. De onde ele está, no galho de uma Árvore Mítica, não suporta o peso excessivo dos mestres nos tornozelos, atados em grilhões, e sente a liberdade sem compromisso de Alice, que simplesmente passa pelos problemas – e sofre com eles – sem que tenha na mente um único propósito. O contra-senso de Alice está justamente em sua falta de objetivo, como se ela não guardasse, para si própria, a mínima intenção de direcionar seu rumo dentro do mundo louco criado por Carroll. Ela se contenta em ser atirada, qual boneca de pano, para cima e para baixo, crescendo e diminuindo ao bel prazer da sucessão dos acontecimentos.

Alice não resiste jamais ao fluxo dos acontecimentos, sendo, aos olhos deste autor, o horror e a inveja do homem comum. Alice é como um alquimista em franca entrega à sua arte.

É exatamente esta percepção que faz este autor crer que sim, ele é fundamentalmente diferente de seus preceptores médicos.

Sua alma não será perdida.

Quando cansei absolutamente da maçada que é a emergência – uma onda sempre crescente de todo tipo de gente desfiada chegando a cada minuto – passava minhas manhãs, tardes e noites na ala da radiologia. Sempre gostei de computadores, de máquinas, e o tomógrafo, ainda que não seja o estado da arte da coisa, é por si só grandioso. Sentado ali, do lado do radiologista, miríades de imagens curiosíssimas se abriam diante dos meus olhos.

 

Por muito menos um homem religioso poderia entrar em transe com elas – pensei.

 

O êxtase místico seria quase tão apelativo quanto esta descrição para este autor, mas a ciência e a arte, as possibilidades, estas sim superam todo e qualquer tentativa de digressão. Eu gosto de máquinas, e isto é diferente de gostar de gente. Eu gosto de gente também mas, diferentemente das máquinas, não se pode desligá-las, pô-las em stand by. Quando se trabalha em hospital com nome de santo, é o santo que põem, ainda que a força, entre as duas orelhas de qualquer um que ouse vestir um casaco branco.

 

Céus, como eu gostaria de poder desligá-las.

 

Digo isto, simples e limpo assim, pois vivemos em um país miserável, com gente muito, muito, carente, e isto muda tudo, tornando o fardo do médico muito grande. Some-se isto à má remuneração daqueles que carinhosamente chamamos de infantaria médica e a empreitada, então, beira o heroísmo. Palavra arriscada.

 

Não nos metemos na demanda heróica por mirarmos muito alto, porém. Fazemo-lo, antes, por sermos o alvo de um tiro que já parece há muito perdido nas profundezas.

Esta tarde um estagiário do terceiro ano do curso médico, um rapaz do interior e de modos estranhos para quem nasceu e cresceu na cidade, revelou, num impulso, que sempre quis ser um interno, antes mesmo de entrar na faculdade. Um sonho um tanto miserável para se ter, foi a resposta deste autor, pois o internato – ao menos este internato de cá – não é nada glorioso.

A ironia do curso médico, continuei, é a de que, enquanto o curso está em seu princípio e existem apenas as matérias básicas, sonha-se com a pura prática, o ideal do internato, mas, neste período inicial, a construção do conhecimento é tão frágil que, quando chega, enfim, o internato, tudo parece ruir um pouco, e o elo entre a teoria das matérias básicas e a prática da clínica se faz estranhamente distante. Nesta hora confusa, percebe-se que faltam também as competências humanas, da psicologia à comunicação, o que torna as coisas ainda mais desencontradas. (é claro que o interno relapso pode, prontamente, fingir que esta etapa não existe. É neste precioso momento que a transição de estudante à figura do médico parece se romper, e o que sobra são indivíduos rasos, muito rasos).

Fundamos um Círculo, este autor e dois amigos também internos, e seu nome não será revelado, pois é nosso segredo. Este Círculo de propôs, em seu princípio, a formar, em nós três, o que seria o fundamento sólido sobre o qual se assenta o conhecimento médico. Foram deixados, então, os caprichos da terapêutica e abraçadas, novamente, as matérias básicas, todas elas ao redor do tronco comum da Fisiologia, o porto seguro do qual seria possível sair rapidamente e beber da Biologia Molecular, da Histologia e da Bioquímica. Dele, fundamentados nele, a Semiologia seria conquistada, abrindo portas para a Patologia e, daí, para a Clínica Médica.

Esta era a utopia deste Círculo, mas, a menos de dois anos para a prova de Residência Médica, o ideal foi deixado de lado sem que nada precisasse ser dito. O autor pensa em entrar, o quanto antes, naquele conhecido cursinho para Residência, tornando-se, como jamais foi diferente, um excelente respondedor de questões pré-fabricadas. Há um certo fascínio nesta idéia. O fascínio de poder estar no topo, o mesmo fascínio do vestibular. Somos estudantes de Medicina, uma espécie de elite intelectual e a prova de Residência é o último filtro, a apoteose da escalada, o cume solitário.

As fantasias são diversas, mas, sob elas, está uma riqueza de procedência obscura, um certo ouro que vem das pessoas doentes em troca do elixir alquímico que afasta a desgraça. Faz-se tão pouco destas fantasias que, quando menos se percebe, ganham, elas, um certo aspecto de realidade. É neste momento que, assim como em Alice, cada capítulo parece uma trama matematicamente arquitetada para que se perca a própria alma.

É engraçado como estórias infantis exercem influência sobre as pessoas, saibam elas ou não. Durante o último plantão, um extenso e cansativo plantão de 24 horas em emergência, este autor foi, com os dois outros membros do Círculo (damos este nome carinhoso ao nosso seleto grupo de Internos) para um Café, no intuito de descansar os pés durante uma mísera hora e conversar amenidades. O Café, que não ficava muito distante do hospital, era, como dizem, um local alternativo, que é o termo de escolha para rotular todo e qualquer tipo de manifestação de personalidade humana não absolutamente quadriculada, com quadros de Klimt e de Blake pelas paredes, um ar condicionado que pouco funcionava e um simpático sofá de três lugares coberto por uma perceptível manta de oncinha.

Inicialmente éramos apenas dois – este autor e um amigo Interno – e nós nos sentamos ao lado do sofá, numa mesa ampla e vazia, cada qual em uma extremidade, e, nada longe dali, a única garçonete das proximidades. O amigo cortou o silêncio, dizendo que, conhecendo-se como ele se conhece, teria de certo algum tipo de pesadelo com um jovem de vinte e poucos anos que chegara morto – carbonizado – na unidade, uma visão nada agradável. A resposta, então, foi de que a sensação não era recíproca, e de súbito surgiu à memória, à medida que o discurso se desenrolava, o único pesadelo deste autor com coisas médicas, um corpo cortado ao meio, do qual restava apenas a parte de cima, e que havia surgido na imaginação como um zumbi que se arrastava apenas com a força dos braços. Olhamos para o lado, depois de feitas as confissões, para a garçonete, que hesitou e escapou pela porta.

Mais tarde, quando a terceira parte do Círculo já havia chegado (e tomávamos um delicioso chocolate gelado com chantilly!) uma moça passou por nós, corpo magro, camiseta curtinha, sem mangas, e uma calça estampada – à moda dos anos 70 ou algo que o valha – tão leve que contrastava com as figuras pétreas dos Internos. Não aparentava cansaço, nervoso ou sequer qualquer um dos muitos pesos que por vezes sentimos deste lado. Ninguém carbonizado, serrado pela metade ou com três furos vermelhos atravessando o peito. Ela não sabia de nada daquilo e, em nossa fantasia, era feliz.

Olhavam, todos, e comparavam pesos. Um papo de palha, madeira ou tijolos surgia, e uma suspeição de que a moça leve e sorridente da noite poderia não suportar as demandas materiais do porvir aqueciam os sonhos dos três, sem maldade ou mentira. Falava-se sobre D’us e sobre Judaísmo, e a máxima judaica de que através do trato com a riqueza se conhece o Homem parecia se mesclar aos três porquinhos sujos. E tínhamos, de fato, marcas de sangue pela roupa, ainda por trocar.

Todo interno que o autor conhece sonha com uma casa de tijolos, e acata a agrura de agora com vistas a um futuro incerto – mas sempre feliz – no qual todos serão bem sucedidos, talvez ricos, e invariavelmente flexíveis, joviais, puros e leves.

Não. Este tópico não se pretende alarde de doenças infecto-contagiosas. O autor, ainda que bastante preocupado com a exposição biológica, é motivado, antes, a dar atenção à exposição humana, coisa tão complicada entre internos, aquele momento preciso no qual o interno deve engolir a pouca saliva e dar a resposta que o preceptor deseja. Sim: aquela resposta que nunca vem.

É fato, pois, que todo interno sabe muito pouco, ainda que estude a esmo, e errar, assim como quem erra para aprender, sempre foi um problema no ensino médico. Não parece haver espaço real para o erro ali, o que é muito engraçado, pois o mesmo tutor que diz Vamos, não tenha medo de errar é o mesmo a pregar o pobre aluno num pedaço de madeira bem alto, onde nem as serpentes sobem. Quando passa o momento de errar, apenas certezas são esperadas por todos… Eis a entrada do inferno.

Defender o vago discurso do Não há espaço para o erro, não há espaço para a imperfeição, não há espaço para a morte corre o risco de atrair um falatório enfadonho sobre a responsabilidade médica, etc., etc., etc. É certo que, desde o início, a medicina é um objeto ingrato de estudo pois, se por um lado não possui a definição arquitetônica dos números e das ciências exatas, por outro não poderia jamais cair na fala isolada dos indivíduos, na opinião. Ciência estranha que é, e que ninguém parece saber fazer, a medicina parece ter mais a ver com a habilidade em aceitar, em ter fé, que em exercer a excelsa faculdade da razão. Quanto mais real se torna, paradoxalmente, mais abstrato tudo parece. A certeza pode não passar de estatística, e a dúvida, o mais real dos sonhos.

No fundo, todo interno percebe no seu íntimo que lá existe um pequeno demônio, um juiz perverso cuja função é não legitimar o esforço alheio em tentar apreender o saber médico. Quando um preceptor estuda muito, não passa de um esforçado. Se passa confiança, é petulante. Se não responde, ignorante. Ninguém, aos olhos do diabrete, possui as chaves ou erigiu arquitetura esta capaz de estruturar um saber que se pretenda realmente médico, pois seu dono, assim como o próprio capeta, não as possui. É fácil ter opiniões, dar respostas aleatórias, mas não existem opiniões em medicina, apenas verdades simples, elegantes e que ninguém parece ter a permissão de possuir.

O autor defendeu, com alguns colegas e amigos, há alguns meses, a fundação de um círculo, por assim, dizer, um grupo de internos engajados na missão de aprender a medicina real, sem crendices. Nada foi estruturado. Nada foi ganho. Falhamos vergonhosamente. Surgiu uma possível causa para o problema: não há tesão este que seja duradouro a ponto de permitir uma aproximação real aos conteúdos médicos. Talvez sejamos fracos. Talvez haja algum mistério a ser desvendado. Talvez precisemos retornar às ciências mais básicas. Talvez, apenas, tenhamos nascido para outras coisas: nunca saberemos.

Toda vez que um preceptor faz uma pergunta, não é uma resposta o que ele quer, mas apenas a confirmação de que o interno foi, é e sempre será inferior, após o que cede sua fala à arte do suposto professor. É um instrumento de dominação e de poder.

Ninguém parece perceber isto.

Feito o primeiro tema, os outros já surgem com mais facilidade. É propício lembrar, ainda que seja óbvio, sobre toda a tensão dos grandes centros urbanos, de miséria e violência – elementos mais sintomáticos que causais.

Isto me lembra uma conversa com duas internas. Nesta conversa surgiu a questão da origem da corrupção estatal, após o que, como já era esperado, choveram respostas falando sobre o Homem e sobre a Ética, o Bem, o Mal e todo aquele falatório que, até que se prove o contrário, não faz mais que desviar os olhos para as coisas práticas.

– Se todas as pessoas fossem honestas… – disse uma delas.

– Então não precisaríamos mais de leis. – respondi.

A pergunta, repetida à beira do enfado, era, essencialmente, sobre a origem – origem palpável – do desvio de recursos. O pensamento centralizava-se sobre quem seria a primeira instância, numa cidade, estado ou país, deste processo, o primeiro homem – ou mulher – a iniciar a dilapidação dos recursos públicos. Quem seria o primeiro corrupto?

Esta pergunta tem sido essencial, pois a experiência mostra que, em cidades do sul do país, onde os índices de corrupção são mínimos e os de educação elevados (em comparação com o restante do país), a pobreza também é diminuta (idem), assim como o desemprego (idem). Nestas cidades, colonizadas por alemães luteranos, o SUS – Sistema Único de Saúde – funciona. Sem filas.

O querido autor estava dirigindo para o hospital nesta manhã, ouvindo algumas das suítes francesas e inglesas de J.S. Bach quando, subitamente, o trânsito parou. Pedidas as devidas licenças ao gênio luterano de Leipzig, o rádio anunciava que barricadas estavam se formando num posto de saúde próximo, num bairro paupérrimo da cidade (o mesmo bairro no qual, segundo um informante, estupradores são julgados em praça pública, molestados sexualmente e depois empalados vivos com cabos de vassoura, mas isto já é outra história), e que os moradores, centenas deles, exigiam melhores condições de saúde. Então voltava a pergunta: quem seria o primeiro corrupto?

Há um mal estar geral, social – ou da própria civilização contemporânea – que por vezes afasta o autor da população que ele próprio atende diariamente. Ele não nega que, nesta encruzilhada, pensa duas vezes se prestará ou não socorro num acidente durante a madrugada ou que, diante do cabo de guerra quotidiano, sonha acordado com a vida isolada de um condomínio fechado, este artigo de luxo que, cada vez mais, parece ser a única forma de não ser consumido pela verdade. Pela verdade não: pelos efeitos colaterais dela.

Escolher um primeiro tema é tão difícil quanto fazer qualquer coisa: hesita-se à beira do tédio e, quando surge algo, nem sempre é grande coisa para quem observa do lado de fora da tenda do circo. Quero falar sobre cores. Gostaria de pedir emprestado o dom para as Letras a algum imortal, mas eles estão todos mortos.

Quero falar sobre a cidade e sobre o cheiro que as pessoas têm.

Quando eu era pequeno a cidade também era pequena, e muito bonita. Sei hoje, porém, que isto está longe de ser verdade. Ela é imensa, infestada de gente – e de bichos – e muito, muito, feia. Vista de cima, de um satélite, ela me lembra um sem número de cidades deste país: um vasto câncer hepático. Sim, hepático. Que o leitor não se espante, assim, logo de cara, ao notar que o autor faz uso irrestrito de toda sorte de truques da língua, e nada disto passa sem uma boa mão de criações e de imagens muito pessoais. É assim que eu vejo as coisas, e a cidade não é diferente: um fígado em seus dias finais, estando o delicado parênquima – a invejavelmente organizada arquitetura das células do fígado – tomado por uma anaplasia – profusa multiplicação de células indiferenciadas, sem limites e sem coração. Eis a imagem: minúsculos são os bairros organizados, e imensos aqueles que foram construídos por homens miseráveis, uns que são bons e outros que nos roubam, falam mal e, por que não, odeiam. Os mesmos que, quando sofrem, vêm nos ver. Engraçado.

Ser interno é, assim, como uma perpétua iniciação. Somos nós que estamos lá para receber o indigente já morto no qual atearam fogo até os ossos; somos nós que lavamos com soro as mãos queimadas do assassino; e tudo isto em silêncio.

Há uma tensão na cidade, e ela não poupa ninguém. Outra noite chegou uma mulher com um pequeno corte – uma facada nas costas, desferida por uma conhecida – e tudo o que ela queria era que este autor costurasse o estrago para que, imediatamente, estivesse em condições de quebrar uma garrafa e rasgar a garganta de sua agressora com a arma recém-forjada. Estava irada, e o sentimento era o de que, se a costura não fosse exatamente como ela exigia, seria este pobre autor um alvo em potencial, algo como “o seguinte é este: você me costura pra não ter que levar nenhum ponto”. Agradabilíssimo.

Há uma tensão social na cidade, e as ruas são rios entre reinos inimigos. Tiros à noite, gente morrendo (tomara que meu pneu não fure), e é este o cenário no qual se assenta nosso labor médico, uma pequena porção de cidade íntegra sendo devorada por territórios dentro dos quais o Estado não entra.