Diário de um Interno

Corrupção e isolamento

Novembro 6, 2007 · Deixe um comentário

Feito o primeiro tema, os outros já surgem com mais facilidade. É propício lembrar, ainda que seja óbvio, sobre toda a tensão dos grandes centros urbanos, de miséria e violência – elementos mais sintomáticos que causais.

Isto me lembra uma conversa com duas internas. Nesta conversa surgiu a questão da origem da corrupção estatal, após o que, como já era esperado, choveram respostas falando sobre o Homem e sobre a Ética, o Bem, o Mal e todo aquele falatório que, até que se prove o contrário, não faz mais que desviar os olhos para as coisas práticas.

– Se todas as pessoas fossem honestas… – disse uma delas.

– Então não precisaríamos mais de leis. – respondi.

A pergunta, repetida à beira do enfado, era, essencialmente, sobre a origem – origem palpável – do desvio de recursos. O pensamento centralizava-se sobre quem seria a primeira instância, numa cidade, estado ou país, deste processo, o primeiro homem – ou mulher – a iniciar a dilapidação dos recursos públicos. Quem seria o primeiro corrupto?

Esta pergunta tem sido essencial, pois a experiência mostra que, em cidades do sul do país, onde os índices de corrupção são mínimos e os de educação elevados (em comparação com o restante do país), a pobreza também é diminuta (idem), assim como o desemprego (idem). Nestas cidades, colonizadas por alemães luteranos, o SUS – Sistema Único de Saúde – funciona. Sem filas.

O querido autor estava dirigindo para o hospital nesta manhã, ouvindo algumas das suítes francesas e inglesas de J.S. Bach quando, subitamente, o trânsito parou. Pedidas as devidas licenças ao gênio luterano de Leipzig, o rádio anunciava que barricadas estavam se formando num posto de saúde próximo, num bairro paupérrimo da cidade (o mesmo bairro no qual, segundo um informante, estupradores são julgados em praça pública, molestados sexualmente e depois empalados vivos com cabos de vassoura, mas isto já é outra história), e que os moradores, centenas deles, exigiam melhores condições de saúde. Então voltava a pergunta: quem seria o primeiro corrupto?

Há um mal estar geral, social – ou da própria civilização contemporânea – que por vezes afasta o autor da população que ele próprio atende diariamente. Ele não nega que, nesta encruzilhada, pensa duas vezes se prestará ou não socorro num acidente durante a madrugada ou que, diante do cabo de guerra quotidiano, sonha acordado com a vida isolada de um condomínio fechado, este artigo de luxo que, cada vez mais, parece ser a única forma de não ser consumido pela verdade. Pela verdade não: pelos efeitos colaterais dela.

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