Diário de um Interno

Exposições e Cidade

Novembro 6, 2007 · Deixe um comentário

Escolher um primeiro tema é tão difícil quanto fazer qualquer coisa: hesita-se à beira do tédio e, quando surge algo, nem sempre é grande coisa para quem observa do lado de fora da tenda do circo. Quero falar sobre cores. Gostaria de pedir emprestado o dom para as Letras a algum imortal, mas eles estão todos mortos.

Quero falar sobre a cidade e sobre o cheiro que as pessoas têm.

Quando eu era pequeno a cidade também era pequena, e muito bonita. Sei hoje, porém, que isto está longe de ser verdade. Ela é imensa, infestada de gente – e de bichos – e muito, muito, feia. Vista de cima, de um satélite, ela me lembra um sem número de cidades deste país: um vasto câncer hepático. Sim, hepático. Que o leitor não se espante, assim, logo de cara, ao notar que o autor faz uso irrestrito de toda sorte de truques da língua, e nada disto passa sem uma boa mão de criações e de imagens muito pessoais. É assim que eu vejo as coisas, e a cidade não é diferente: um fígado em seus dias finais, estando o delicado parênquima – a invejavelmente organizada arquitetura das células do fígado – tomado por uma anaplasia – profusa multiplicação de células indiferenciadas, sem limites e sem coração. Eis a imagem: minúsculos são os bairros organizados, e imensos aqueles que foram construídos por homens miseráveis, uns que são bons e outros que nos roubam, falam mal e, por que não, odeiam. Os mesmos que, quando sofrem, vêm nos ver. Engraçado.

Ser interno é, assim, como uma perpétua iniciação. Somos nós que estamos lá para receber o indigente já morto no qual atearam fogo até os ossos; somos nós que lavamos com soro as mãos queimadas do assassino; e tudo isto em silêncio.

Há uma tensão na cidade, e ela não poupa ninguém. Outra noite chegou uma mulher com um pequeno corte – uma facada nas costas, desferida por uma conhecida – e tudo o que ela queria era que este autor costurasse o estrago para que, imediatamente, estivesse em condições de quebrar uma garrafa e rasgar a garganta de sua agressora com a arma recém-forjada. Estava irada, e o sentimento era o de que, se a costura não fosse exatamente como ela exigia, seria este pobre autor um alvo em potencial, algo como “o seguinte é este: você me costura pra não ter que levar nenhum ponto”. Agradabilíssimo.

Há uma tensão social na cidade, e as ruas são rios entre reinos inimigos. Tiros à noite, gente morrendo (tomara que meu pneu não fure), e é este o cenário no qual se assenta nosso labor médico, uma pequena porção de cidade íntegra sendo devorada por territórios dentro dos quais o Estado não entra.

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