Diário de um Interno

Exposição e Risco

Novembro 11, 2007 · Deixe um comentário

Não. Este tópico não se pretende alarde de doenças infecto-contagiosas. O autor, ainda que bastante preocupado com a exposição biológica, é motivado, antes, a dar atenção à exposição humana, coisa tão complicada entre internos, aquele momento preciso no qual o interno deve engolir a pouca saliva e dar a resposta que o preceptor deseja. Sim: aquela resposta que nunca vem.

É fato, pois, que todo interno sabe muito pouco, ainda que estude a esmo, e errar, assim como quem erra para aprender, sempre foi um problema no ensino médico. Não parece haver espaço real para o erro ali, o que é muito engraçado, pois o mesmo tutor que diz Vamos, não tenha medo de errar é o mesmo a pregar o pobre aluno num pedaço de madeira bem alto, onde nem as serpentes sobem. Quando passa o momento de errar, apenas certezas são esperadas por todos… Eis a entrada do inferno.

Defender o vago discurso do Não há espaço para o erro, não há espaço para a imperfeição, não há espaço para a morte corre o risco de atrair um falatório enfadonho sobre a responsabilidade médica, etc., etc., etc. É certo que, desde o início, a medicina é um objeto ingrato de estudo pois, se por um lado não possui a definição arquitetônica dos números e das ciências exatas, por outro não poderia jamais cair na fala isolada dos indivíduos, na opinião. Ciência estranha que é, e que ninguém parece saber fazer, a medicina parece ter mais a ver com a habilidade em aceitar, em ter fé, que em exercer a excelsa faculdade da razão. Quanto mais real se torna, paradoxalmente, mais abstrato tudo parece. A certeza pode não passar de estatística, e a dúvida, o mais real dos sonhos.

No fundo, todo interno percebe no seu íntimo que lá existe um pequeno demônio, um juiz perverso cuja função é não legitimar o esforço alheio em tentar apreender o saber médico. Quando um preceptor estuda muito, não passa de um esforçado. Se passa confiança, é petulante. Se não responde, ignorante. Ninguém, aos olhos do diabrete, possui as chaves ou erigiu arquitetura esta capaz de estruturar um saber que se pretenda realmente médico, pois seu dono, assim como o próprio capeta, não as possui. É fácil ter opiniões, dar respostas aleatórias, mas não existem opiniões em medicina, apenas verdades simples, elegantes e que ninguém parece ter a permissão de possuir.

O autor defendeu, com alguns colegas e amigos, há alguns meses, a fundação de um círculo, por assim, dizer, um grupo de internos engajados na missão de aprender a medicina real, sem crendices. Nada foi estruturado. Nada foi ganho. Falhamos vergonhosamente. Surgiu uma possível causa para o problema: não há tesão este que seja duradouro a ponto de permitir uma aproximação real aos conteúdos médicos. Talvez sejamos fracos. Talvez haja algum mistério a ser desvendado. Talvez precisemos retornar às ciências mais básicas. Talvez, apenas, tenhamos nascido para outras coisas: nunca saberemos.

Toda vez que um preceptor faz uma pergunta, não é uma resposta o que ele quer, mas apenas a confirmação de que o interno foi, é e sempre será inferior, após o que cede sua fala à arte do suposto professor. É um instrumento de dominação e de poder.

Ninguém parece perceber isto.

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