É engraçado como estórias infantis exercem influência sobre as pessoas, saibam elas ou não. Durante o último plantão, um extenso e cansativo plantão de 24 horas em emergência, este autor foi, com os dois outros membros do Círculo (damos este nome carinhoso ao nosso seleto grupo de Internos) para um Café, no intuito de descansar os pés durante uma mísera hora e conversar amenidades. O Café, que não ficava muito distante do hospital, era, como dizem, um local alternativo, que é o termo de escolha para rotular todo e qualquer tipo de manifestação de personalidade humana não absolutamente quadriculada, com quadros de Klimt e de Blake pelas paredes, um ar condicionado que pouco funcionava e um simpático sofá de três lugares coberto por uma perceptível manta de oncinha.
Inicialmente éramos apenas dois – este autor e um amigo Interno – e nós nos sentamos ao lado do sofá, numa mesa ampla e vazia, cada qual em uma extremidade, e, nada longe dali, a única garçonete das proximidades. O amigo cortou o silêncio, dizendo que, conhecendo-se como ele se conhece, teria de certo algum tipo de pesadelo com um jovem de vinte e poucos anos que chegara morto – carbonizado – na unidade, uma visão nada agradável. A resposta, então, foi de que a sensação não era recíproca, e de súbito surgiu à memória, à medida que o discurso se desenrolava, o único pesadelo deste autor com coisas médicas, um corpo cortado ao meio, do qual restava apenas a parte de cima, e que havia surgido na imaginação como um zumbi que se arrastava apenas com a força dos braços. Olhamos para o lado, depois de feitas as confissões, para a garçonete, que hesitou e escapou pela porta.
Mais tarde, quando a terceira parte do Círculo já havia chegado (e tomávamos um delicioso chocolate gelado com chantilly!) uma moça passou por nós, corpo magro, camiseta curtinha, sem mangas, e uma calça estampada – à moda dos anos 70 ou algo que o valha – tão leve que contrastava com as figuras pétreas dos Internos. Não aparentava cansaço, nervoso ou sequer qualquer um dos muitos pesos que por vezes sentimos deste lado. Ninguém carbonizado, serrado pela metade ou com três furos vermelhos atravessando o peito. Ela não sabia de nada daquilo e, em nossa fantasia, era feliz.
Olhavam, todos, e comparavam pesos. Um papo de palha, madeira ou tijolos surgia, e uma suspeição de que a moça leve e sorridente da noite poderia não suportar as demandas materiais do porvir aqueciam os sonhos dos três, sem maldade ou mentira. Falava-se sobre D’us e sobre Judaísmo, e a máxima judaica de que através do trato com a riqueza se conhece o Homem parecia se mesclar aos três porquinhos sujos. E tínhamos, de fato, marcas de sangue pela roupa, ainda por trocar.
Todo interno que o autor conhece sonha com uma casa de tijolos, e acata a agrura de agora com vistas a um futuro incerto – mas sempre feliz – no qual todos serão bem sucedidos, talvez ricos, e invariavelmente flexíveis, joviais, puros e leves.
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