Esta tarde um estagiário do terceiro ano do curso médico, um rapaz do interior e de modos estranhos para quem nasceu e cresceu na cidade, revelou, num impulso, que sempre quis ser um interno, antes mesmo de entrar na faculdade. Um sonho um tanto miserável para se ter, foi a resposta deste autor, pois o internato – ao menos este internato de cá – não é nada glorioso.
A ironia do curso médico, continuei, é a de que, enquanto o curso está em seu princípio e existem apenas as matérias básicas, sonha-se com a pura prática, o ideal do internato, mas, neste período inicial, a construção do conhecimento é tão frágil que, quando chega, enfim, o internato, tudo parece ruir um pouco, e o elo entre a teoria das matérias básicas e a prática da clínica se faz estranhamente distante. Nesta hora confusa, percebe-se que faltam também as competências humanas, da psicologia à comunicação, o que torna as coisas ainda mais desencontradas. (é claro que o interno relapso pode, prontamente, fingir que esta etapa não existe. É neste precioso momento que a transição de estudante à figura do médico parece se romper, e o que sobra são indivíduos rasos, muito rasos).
Fundamos um Círculo, este autor e dois amigos também internos, e seu nome não será revelado, pois é nosso segredo. Este Círculo de propôs, em seu princípio, a formar, em nós três, o que seria o fundamento sólido sobre o qual se assenta o conhecimento médico. Foram deixados, então, os caprichos da terapêutica e abraçadas, novamente, as matérias básicas, todas elas ao redor do tronco comum da Fisiologia, o porto seguro do qual seria possível sair rapidamente e beber da Biologia Molecular, da Histologia e da Bioquímica. Dele, fundamentados nele, a Semiologia seria conquistada, abrindo portas para a Patologia e, daí, para a Clínica Médica.
Esta era a utopia deste Círculo, mas, a menos de dois anos para a prova de Residência Médica, o ideal foi deixado de lado sem que nada precisasse ser dito. O autor pensa em entrar, o quanto antes, naquele conhecido cursinho para Residência, tornando-se, como jamais foi diferente, um excelente respondedor de questões pré-fabricadas. Há um certo fascínio nesta idéia. O fascínio de poder estar no topo, o mesmo fascínio do vestibular. Somos estudantes de Medicina, uma espécie de elite intelectual e a prova de Residência é o último filtro, a apoteose da escalada, o cume solitário.
As fantasias são diversas, mas, sob elas, está uma riqueza de procedência obscura, um certo ouro que vem das pessoas doentes em troca do elixir alquímico que afasta a desgraça. Faz-se tão pouco destas fantasias que, quando menos se percebe, ganham, elas, um certo aspecto de realidade. É neste momento que, assim como em Alice, cada capítulo parece uma trama matematicamente arquitetada para que se perca a própria alma.
1 resposta Até agora ↓
Sissa // Dezembro 15, 2007 às 2:19 pm |
Sou estudante de medicina e acabo de terminar o quinto ano. Por um certo acaso li o texto ” Alice no país das maravilhas” ao entrar nesta página achando que tinham informações sobre escalada. Sou escaladora !
Entrei de férias da faculdade ontém (14/12/07) e muito triste pelo que o curso médico vêm se mostrando. Após a leitura refleti sobre os cinco anos de faculdade e percebi que é preciso resguadar nossa alma, para que ela não se perca nos exames complementares, nos diagnósticos “rasos”… Estou a caminho do cume solitário ( que é apenas o meio do caminho ) e espero após a decida, encontrar companheiros como vocês que durante a subida, ao invés de deixar a alma esvainecer, fortaleceram-na, agarra após agrra, pé após pé.
Boas escaladas na medicina, na vida!
Obrigada pela menssagem
Anisse Chami/ Sissa