Quando cansei absolutamente da maçada que é a emergência – uma onda sempre crescente de todo tipo de gente desfiada chegando a cada minuto – passava minhas manhãs, tardes e noites na ala da radiologia. Sempre gostei de computadores, de máquinas, e o tomógrafo, ainda que não seja o estado da arte da coisa, é por si só grandioso. Sentado ali, do lado do radiologista, miríades de imagens curiosíssimas se abriam diante dos meus olhos.
Por muito menos um homem religioso poderia entrar em transe com elas – pensei.
O êxtase místico seria quase tão apelativo quanto esta descrição para este autor, mas a ciência e a arte, as possibilidades, estas sim superam todo e qualquer tentativa de digressão. Eu gosto de máquinas, e isto é diferente de gostar de gente. Eu gosto de gente também mas, diferentemente das máquinas, não se pode desligá-las, pô-las em stand by. Quando se trabalha em hospital com nome de santo, é o santo que põem, ainda que a força, entre as duas orelhas de qualquer um que ouse vestir um casaco branco.
Céus, como eu gostaria de poder desligá-las.
Digo isto, simples e limpo assim, pois vivemos em um país miserável, com gente muito, muito, carente, e isto muda tudo, tornando o fardo do médico muito grande. Some-se isto à má remuneração daqueles que carinhosamente chamamos de infantaria médica e a empreitada, então, beira o heroísmo. Palavra arriscada.
Não nos metemos na demanda heróica por mirarmos muito alto, porém. Fazemo-lo, antes, por sermos o alvo de um tiro que já parece há muito perdido nas profundezas.
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