Diário de um Interno

Alice no País das Maravilhas (II)

Janeiro 6, 2008 · 2 Comentários


Um mês é tempo suficiente para entortar o eixo da Terra. Quando se é interno – espécime estranho de estudante de medicina – a imersão prolongada em unidades de saúde induz a uma pequena perda de si, do fio da meada, da coisa toda, menos um lapso e mais uma sensação de ter ido longe demais atrás de um coelho sempre com pressa. O Internato às vezes me lembra de Alice.

Lewis Carroll era professor de matemática, e foi um amigo deste autor, um amante dos números, que revelou uma faceta até então ignorada da obra do notável escritor: tudo ali são problemas, problemas matemáticos (num mundo atípico) cuja resolução (também atípica) conduz a outro lugar (provavelmente a outro problema). A não –resolução, porém, não raro ameaça destinos trágicos, como a perda da própria identidade ou mesmo, ainda que com menos glamour, a uma morte prematura. Uma vez em cada ano surge uma chance – breve – de sair do buraco e respirar um pouco do lado de fora. Este breve ínterim detém um grande poder.

Um mês é tempo suficiente para entortar bastante o eixo de um mundo. Quando os problemas, os hospitais e todas estas coisas, parecem distantes, o que fica é uma sensação de possibilidade, uma sensação magnífica de que múltiplas saídas podem (e são) criadas. Neste mês este autor voltou a ler romances, contou estórias, jogou um pouco de água num jardim bem seco, esturricado, leu sobre economia, mercado de capitais, administração, semiótica, lingüística, teoria literária, pintou três quadros e achou pouco, apaixonou-se pelo Direito numa leitura de Hermenêutica Jurídica.

Veio a memória de todos os professores pretensamente amantes das artes e das humanidades. Pareceram-lhe por demais rasos, diante de coisa em si. Perguntou a razão, e eis que a razão foi revelada: por não agüentarem a aridez quotidiana, recorrem ao uso destes elixires estranhos, e não o fazem porque gostam ou porque sentem ou entendem. Fazem porque é necessário, desesperadoramente necessário.

Este autor por vezes imagina se o desespero dos tutores é, também, o seu desespero, e pensa que talvez seja da mesma natureza, embora em diferente grau. De onde ele está, no galho de uma Árvore Mítica, não suporta o peso excessivo dos mestres nos tornozelos, atados em grilhões, e sente a liberdade sem compromisso de Alice, que simplesmente passa pelos problemas – e sofre com eles – sem que tenha na mente um único propósito. O contra-senso de Alice está justamente em sua falta de objetivo, como se ela não guardasse, para si própria, a mínima intenção de direcionar seu rumo dentro do mundo louco criado por Carroll. Ela se contenta em ser atirada, qual boneca de pano, para cima e para baixo, crescendo e diminuindo ao bel prazer da sucessão dos acontecimentos.

Alice não resiste jamais ao fluxo dos acontecimentos, sendo, aos olhos deste autor, o horror e a inveja do homem comum. Alice é como um alquimista em franca entrega à sua arte.

É exatamente esta percepção que faz este autor crer que sim, ele é fundamentalmente diferente de seus preceptores médicos.

Sua alma não será perdida.

Categorias: Uncategorized
Etiquetado: , , , , , ,

2 respostas Até agora ↓

  • fabiola // Julho 7, 2008 às 10:50 pm | Responder

    voce, sei la quem é, decifrou Alice, ela simplesmente é demais, uma alquimista, onde a paciencia, que ela nao tem mas se protege com outras qualidades, como os aborrescentes fazem para resolver seus conflitos. Amei seu comentario, parabens

  • fabiola // Julho 7, 2008 às 10:52 pm | Responder

    voce, sei la quem é, decifrou Alice, ela simplesmente é demais, uma alquimista, onde a paciencia, que ela nao tem mas se protege com outras qualidades, como os aborrescentes fazem para resolver seus conflitos. Amei seu comentario, parabens e feliz desaniversario

Deixe um comentário