Diário de um Interno

Libra

Fevereiro 8, 2008 · Deixe um comentário

Tudo começou com uma balança, mas hoje estou doente. Nesta manhã de sexta-feira o ofício de Interno me preparava para uma longa manhã de atendimentos em um ambulatório localizado num ponto ermo da cidade, numa comunidade dita carente. Acho engraçado este termo, pois grande parte dos moradores da rua principal exibem receptores Sky pregados nas suas paredes, muitos deles possuem lojas e o último fumante que atendi, uma senhora de meros cinqüenta anos de idade, teria hoje uma quantia estimada em R$800.000,00 (oitocentos mil reais) caso tivesse comprado ações no lugar de maços de cigarro.

Não estamos diante de uma comunidade carente porque ela não tem recursos, mas por ela não saber usar os recursos que tem. Riram de um grande amigo deste autor quando se mostrou avesso à idéia de tapar os buracos de um bairro sem a menor infra-estrutura sanitária. De maneira semelhante, quando apontei, em uma peculiar reunião semanal sobre “o futuro das ações em saúde”, que muito me agradaria ver economistas integrando equipes de saúde, todos riram redondamente da idéia.

 

Tudo começou com uma balança pois este autor se achou doente, e nada disto tem a ver com um súbito – e chatíssimo – resfriado comum que o derrubou na cama nesta sexta-feira. Tem, antes disto, relação com o fato de ter achado seu corpo… inadequado. Esta foi a melhor palavra que pôde ser achada – inadequado – pois, a rigor, não se pode dizer que o corpo esteja doente, ainda que os fatores de risco existam. Este autor, muito antes de ser interno, não consome qualquer tipo de droga, lícita ou ilícita, quase não come carnes vermelhas e, apesar de todos os esforços, esforça-se contra um incômodo sobrepeso e um histórico familiar rico em percalços.

 

Quando tudo começa com uma balança, isto quer dizer que existe o desejo de não adoecer, na casa dos cinqüenta, por coisas feitas na casa dos vinte. Neste sentido, negar uma prática de ambulatório da sexta-feira pela manhã pode ser o começo de um novo padrão de comportamento, similar àquele que trocaria montanhas de cigarro pelo mercado acionário. Assim que o resfriado passar, o autor vai a uma loja de cores berrantes para comprar uma balança e, toda vez que subir nela, verá um futuro duro se curvar, fluido, enquanto as circunstâncias ainda são moles. Bem moles.

 

 

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