É verdade quando o autor diz que tem sono. Dia de acordar cedo, como sempre tem sido. Já vestido, vejo que faltam documentos para que a carteira de motorista seja renovada. Para-se tudo. Procura-se, e procura-se mais uma vez. A maçada, terminada quase às 10:00, inicia um dia sem qualquer atenção. O pescoço dói, como tem doído ultimamente, mas passa com uma massagem. Depois volta, porém, e o ciclo recomeça. Tarde em meio a papeladas, e o grupo de estudos para a Residência fica em segundo plano. À noite teve cinema (Homem de Ferro) e por alguns instantes formaram-se as imagens da infância, com máquinas, pequenos motores, peças pneumáticas e um eletroímã que eu mesmo uma vez fiz ao longo de uma chave de fenda. Desejo de ser realmente bom em algo, de ser um gênio, por assim dizer.
Todos diziam que eu poderia ser o melhor nestas coisas. Eu sempre construí coisas, mecanismos, escrevi programas, mas nada disto frutificou. Quando resta a Medicina, porém, bem, ela é tão grande que eu me sinto verdadeiramente perdido. Não posso construir nela, pelo menos não da forma que eu sempre construí. Isto frustra, de certa forma. No hospital, alguma coisa quebra e logo me levam para o problema. Resolvo-o, quase sempre, e este autor não sabe por que as pessoas não consertam aquelas coisas por elas próprias. O pai era geólogo, e cavava a terra com máquinas gigantescas. Ensinava-me sobre todas aquelas coisas, e eu nunca realmente me interessei naquilo – exceto quando tinha a sensação de ter apreendido algo com consistência. O padrasto, este ainda vivo – mas distante – e engenheiro, me levava para construir coisas. Para consertar coisas. Talvez por isto meu brinquedo sempre foi apenas um: Lego.
Na adolescência as Artes todas vieram, da pintura à música, do teatro à alquimia e à magia (sim, é isto mesmo), um verdadeiro vórtice de tudo o que não é apreensível. A técnica era aprazível. O conteúdo era aprazível. Nunca realmente tive a sensação de entender as artes. Até hoje não sei ao certo o que é isto. Tudo estava diluído em Arte, e assim foi do preâmbulo à Psicologia, e desta à Medicina. Este autor ingressou no curso médico fantasiando estar em vias de se tornar uma espécie de druida moderno. Hoje, porém, ele odeia médicos pajés e todo tipo de bobagem. Pensou em largar todas as coisas, mas acabou ganhando uma analista. Não a largou mais, mesmo com o preço difícil.
Falta a sensação de poder comportar o conhecimento médico em uma única cabeça, em uma única memória. Tudo parece tão inverossímil, tão desconexo, como um sonho ruim. Médicos não entendem de matemática, e há muito esqueceram da física e até mesmo da química. Médicos também não entendem de psicologia ou de religião, e a falta de tato interpessoal de alguns beira o surrealismo, ou a loucura. Estão no meio, e não entendem bem que lugar é este, o que não é tão ruim quanto o fato de nem mesmo arriscarem as perguntas essenciais: o que é isto? Que lugar é este? Como construo conhecimento aqui? No fim, o que este autor vê, em pleno internato, é que o conhecimento médico parece transitar entre dois pólos: numa ponta, um desnecessariamente denso jargão técnico cheio de neologismos tanto inúteis quanto malformados; na outra, uma certa ponta de lábia, de sofisma. Não é por acaso que o senso comum os julga – ou, melhor dizendo, nos julga – como uma classe que parece estar sempre tentando confundir, quando não enganar.
Não creio que o problema deste autor seja o da falta de inteligência. É mais uma tristeza por as coisas serem como são. Médicos entendem, grosso modo, de histórias, e estas histórias, compiladas com a fragilidade da fragmentária obra homérica, versam sobre como manusear linearmente uma infinidade de alterações sistêmicas dos organismos humanos. Em certo ponto, a imaginação de um preceptor termina por enquadrar um doente numa doença que só existe na cabeça daquele, e para o inferno com testes objetivos. No fim dizem, tranqüilos, que Medicina é bom senso e nada mais.
Se Física fosse bom senso, até hoje pensaríamos que a pedra cai rumo à terra e o fogo se insinua para o alto pois o Elemento Terra está abaixo e o Elemento Fogo está em cima, e, como fogo gosta de fogo e terra gosta de terra, eles se atraem, certo?
Em breve tentarei estruturar melhor esta crítica. Por ora fica a coisa em estado bruto. Boa noite a todos.
1 resposta Até agora ↓
DanieL Moreno // Fevereiro 11, 2009 às 1:16 pm |
Engraçado como você fica perto e longe quando escreve.
Delicioso como conseguiu por em regras o que compartilho com você sobre a Medicina; também sou estudante, não interno ainda. Confesso que teria ficado mais tempo a falar das Artes – minha cama é feita de espetáculos – mas cada um com o que lhe mantém, não é mesmo?
Gostei da visita comentada. Muito. Continuo esperando as próximas?