489. Indo profundamente demais. – Pessoas que compreendem algo em toda a sua profundeza raramente lhe permanecem fiéis para sempre. Elas justamente levaram luz à profundeza: então há muita coisa ruim para ver.
Nietzsche, Humano, Demasiado HumanoNão posso ter outra certeza senão a de que falo por mim mesmo. Tenho, porém, um bom palpite de que não estou sozinho nesta investida, de que dou voz a muitos de nós neste momento e vejo nisto, além de uma oportunidade, a nossa própria sina, o contato direto, a licença da palavra e do segredo. Percebo, neste nosso percurso, que poucas coisas são tão prazerosas quanto reconhecer, no outro, o que nos é próprio, mesmo que pouco evidente ou que seja, aqui, desagradável como uma persona non grata. Aquilo que se inicia como uma pequena ignorância e que se torna familiar soa como a memória de um outro, como algo que, contra a própria razão, parece pertencer a uma outra vida, e não falo em assuntos que tangem a fé de alguns na perpetuação ou não da personalidade além deste mundo, mas de uma outra coisa – e não menos intrigante – que se relaciona ao próprio espírito das possibilidades. Que seria se não isto que sou, se não fosse médico, distante deste jugo que tão raramente é suave?
Um desenho, esboço, que é reflexo do meu discurso no outro, que ignora deveras meu mundo, mas que abriga a sete chaves, ele próprio, uma realidade maravilhosa à qual não serei, jamais, convidado. Fatalidades da convivência. Não possuirei o número do matemático, a justiça do juiz, muito menos o Deus dos teólogos ou dos monges. Não terei a verdade dos filósofos. Sinto-me pequeno quando vejo o mundo desta maneira, igualmente livre e encarcerado e, bem no meio destas duas palavras traiçoeiras, contemplo a morada que escolhi, um bosque composto de leis e dificuldades próprias, meu lar, com seu quinhão de santidade e suas próprias migalhas de heroísmo, incompreensíveis para quem não viveu o que vivemos, pois estar doente é, antes de mais nada, estar perdido.
Não precisaremos enumerar os momentos em que nos lançamos a aprender os nomes e os processos de tudo o que se apresenta diante dos olhos, suas estruturas brutas, às vezes minuciosamente, carbono por carbono, e também aquelas do verbo. Dispensaremos tudo o que é fastidioso e conservaremos apenas o essencial, a faísca, o insight, o gatilho de todas as lembranças que agora se aglutinam de maneira quase indiscernível umas das outras, pois elas não podem ser transferidas de outra forma senão através da própria vida. Deste modo, proponho algo diferente: convido-os a revisitar o que quer que desejem dentre as incontáveis lembranças que acumulamos nos últimos seis anos agora mesmo, através de gatilhos simples como: amparo, alegrias, aulas, afetos, altruísmo, atendimentos, amanheceres, afinidades, animosidades, angústias, agradecimentos, aniversários, aromas, anoiteceres, amor, e, vejam bem, eu nem sequer saí da letra “a”. Eis o que somos.
Tornar-se médico parece não fazer sentido para mais ninguém, um terreno de linguagem absurdamente inóspito, pois implica em significantes tão antigos que nossa mente não pode se ater senão a um verdadeiro vazio, o vazio da palavra, que não é capaz de perfurar a realidade como uma estaca na carne, que é demasiadamente jovem em relação à linguagem ancestral do doente e do curandeiro, do ritual da cura e do artifício da doença. Não nos enganemos: símbolos de dimensões titânicas como estes não podem ser agarrados ou contidos, muito menos tomados de forma leviana. Sejamos pacientes. Quando sairmos em nossos próprios caminhos, nossa imagem será manipulada, distorcida, associada pelo outro a qualquer coisa mágica, fantástica, e toda esta fantasia se prestará ao impossível, à expressão do inexprimível. Quando veem, em nós, o sacerdote e o herói, vejo apenas profundeza, irresistível incógnita que me impulsiona a explorá-la com todas as minhas fibras. Chamo-lhe cotidiano, mais uma vez, a paciência necessária para não ser nada além do que sou e sempre fui, mortal, falível, desagradavelmente comum, exatamente como o outro, paciente, doente, perdido, que tanto me serve de espelho, para que eu não me esqueça. Quando vejo as coisas com olhos de simplicidade, tudo parece mais claro. O bosque se enche de luz. Avanço um palmo no profundo abismo daquilo que não sei.
Nos princípios dos que nos buscam, vejo o nosso próprio fim e, no curso de um passeio, a certeza de que não estarão vagando sem norte em nosso estranho bosque. Chamo-lhe cotidiano. Seremos seus guias. Acenderemos lâmpadas no caminho e, quando não houver mais ninguém ao redor, saberemos que não estamos sós, até o exaurir do tempo, nosso hermetismo particular, nossa língua-mãe, nosso território ou, melhor, nossa própria terra natal, árdua, longa e refletidamente re-territorializada. No desenrolar dos últimos seis anos tomamos posse de um lar definitivo no qual não precisaremos jamais temer o exílio. Chamo-lhe conquista, a mais doce entre todas as conquistas, a porta de todas as maravilhas.
Prelúdio de Formatura (ou “O que poderia ser dito”)
Fevereiro 12, 2009 · 1 Comentário
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1 resposta Até agora ↓
DanieL Moreno // Fevereiro 12, 2009 às 1:50 pm |
Uma enorme fenda entre o texto anterior e esse mais recente. Me pergunto onde esteve entrementes.
Vou usar o seu discurso-que-deveria-ser como argumento em uma discussão interna.
Gostei da sugestão de leitura. Confesso que não o li, mas logo mudarei isso.
Caso queria/seja válido: danext_@hotmail.com
Certo abraço